Aumento na compra do veículo de duas rodas impulsiona o número de contratações de seguro; uso intensivo de dados auxilia companhias a entrarem em um ramo historicamente pouco explorado
Reportagem publicada, originalmente, na 64ª edição da revista digital.
A frota segurada de motocicletas está crescendo no Brasil. Um recente levantamento da FenSeg em parceria com a Senatran revelou que, até dezembro de 2025, 1,94 milhão de unidades já estavam protegidas, um avanço de aproximadamente 9% em relação ao ano anterior. No total, 5,2% das motos em circulação no país estão protegidas.
“Apesar da evolução recente, os dados mostram que o seguro ainda está presente em uma parcela relativamente pequena da frota de motos no país”, avalia Jaime Soares, presidente da comissão de auto da FenSeg. Hoje, em um terço dos municípios do país há mais motos do que carros, e em 1.903 cidades já têm predominância de motocicletas.

Em paralelo, o brasileiro está cada vez mais adepto ao uso do veículo de duas rodas, que superou 37 milhões de unidades. A venda de motocicletas em 2025 foi a maior dos últimos 22 anos, segundo a Abraciclo. Na avaliação Soares, o cenário evidencia um amplo espaço para expansão do seguro. “O corretor exerce um papel fundamental como consultor do cliente, orientando sobre as coberturas mais adequadas, avaliando riscos e ajudando o motociclista a tomar decisões mais conscientes e alinhadas à sua realidade”, explica o especialista.
Nem tudo é só oportunidade. O ramo, que ainda engatinha no Brasil, apresenta-se com desafios culturais. É o que relata o motociclista e corretor Cristiano Fox, da Regional Corretora de Seguros, parceira da Lojacorr. “A principal barreira hoje é a cultura”, destaca. Por ser um entusiasta das duas rodas, Fox aumentou o portfólio da sua corretora, que produz mensalmente 20 apólices no segmento entre renovações e novos negócios. “Às vezes o segurado fica pensando que o seguro é caro justamente porque não conhece os produtos”, complementa.
O ramo de motocicleta virou uma porta de entrada para a Regional Corretora. “Quem está pilotando pode ser um empresário ou profissional liberal, seja um arquiteto ou médico, que precisa de seguros também em outras esferas”, observa Fox.

O aumento da cultura do seguro passa pela aceitação maior das seguradoras. Desde o início da sua operação, a Suhai apostou no segmento. “Identificamos uma lacuna importante: muitos motociclistas ficavam sem proteção por falta de produtos acessíveis e adequados à sua realidade.
A Suhai nasceu exatamente para ocupar esse espaço, oferecendo uma solução objetiva para um risco real e recorrente”, relata Eduardo Grillo, Diretor Executivo Comercial da companhia. Na seguradora, a carteira é uma das mais relevantes, com crescimento de mais de 40% em 2025. “Ao longo dos últimos anos, registramos um crescimento consistente tanto em número de apólices quanto na representatividade dentro do nosso portfólio”, revela Grillo.

Precificação ficando mais “justa”
Um fenômeno está rompendo a barreira que as seguradoras sempre encontravam para assumir o risco de um ramo com alto potencial de sinistralidade: o uso de dados. Com informações detalhadas do condutor, as companhias conseguem segmentar perfis e diferenciá-los por tipo de uso, região e comportamento.
Em março deste ano, a média do valor do seguro para motocicletas atingiu o menor patamar já registrado pelo Índice de Preço do Seguro de Automóvel e Moto (IPSA + IPSM). O estudo, desenvolvido pela TEx, insurtech parte da Serasa Experian, registrou o índice 8,4%, rompendo o intervalo entre 9% e 10% que predominou durante o ano de 2025.

De acordo com Emir Zanatto, Head de Seguros da Serasa Consumidor, a queda no valor significa uma mudança de patamar no mercado, com menos pressão de preço e mais eficiência na precificação. “É o reflexo de uma recalibração do risco por parte das seguradoras. Com mais dados, mais histórico e um ambiente mais competitivo, o mercado ficou mais equilibrado e previsível”, detalha
O estudo mostra que, apesar de parecer complexo, o preço do seguro está concentrado em poucas variáveis-chave, como perfil do condutor, localização e uso do veículo. “Na prática, isso permite que o corretor seja mais estratégico. Ele consegue entender melhor o risco, explicar o preço para o cliente de forma mais transparente e até antecipar algumas objeções”, salienta Zanatto.
Na avaliação do executivo, o momento mais equilibrado, com preços em novo patamar e menos pressão, favorece a abordagem consultiva. “Com apoio de tecnologia e dados, o corretor ganha agilidade, melhora a experiência do cliente e aumenta a conversão. Em um cenário aquecido, isso faz muita diferença”, pontua.
Entre passeios e geração de renda
O recorde nas vendas de motocicletas mostrou que elas têm um papel central na vida das famílias brasileiras, sendo utilizadas tanto para passeios, deslocamento para o trabalho e até para geração de renda, especialmente nas atividades por aplicativo. “Isso reflete uma transformação importante na mobilidade urbana e no mercado de trabalho”, pontua o diretor da FenSeg.
Nesse contexto, segundo Jaime, o seguro ganha ainda mais relevância. “Para muitos brasileiros, a motocicleta não é apenas um meio de transporte, mas uma ferramenta de geração de renda — e sua perda pode significar a interrupção imediata da atividade profissional”, destaca.
De acordo com os dados do IBGE, o Brasil possui cerca de 485 mil motociclistas e entregadores trabalhando de forma principal por meio de plataformas digitais. Na avaliação de Zanatto, o mercado vive um momento único com maior uso profissional e, ao mesmo tempo, um ambiente de seguros mais acessível e competitivo.
“A gente passa a ter uma base maior de veículos e, mais do que isso, um público que depende diretamente da moto, o que aumenta a percepção de valor da proteção”, conclui o Head de Seguros da Serasa Consumidor.





