Mulheres no mercado de seguros: as vozes que ecoam do topo

Mulheres no mercado de seguros: as vozes que ecoam do topo

Composto por maioria mulher, mercado de seguros nacional evoluiu, mas, assim como em outros setores da economia, ainda não atingiu a equidade de gênero em cargos de liderança; no setor, para cada dois homens em cadeira de decisão, existe uma executiva

No lançamento do Plano de Desenvolvimento do Mercado de Seguros (PDMS), ocorrido no dia 16 de março de 2023, os olhos de todo o setor estavam voltados para a iniciativa. O plano tem o objetivo de aumentar a participação da indústria na economia e, consequentemente, levar os produtos para uma parcela maior da população brasileira até 2030. Liderado pela CNseg, o PDMS contou com a colaboração de todas as entidades supervisionadas pela Susep e pela ANS, como a FenaPrevi, FenSeg, FenaSaúde e FenaCap. A Fenacor representou os corretores de seguros.

Pouco mais de um ano depois do lançamento, um olhar para o implícito provoca a atenção para um debate que está ganhando volume no setor nos últimos anos: a participação das mulheres em cargos de liderança. O 4º Estudo Mulheres no Mercado de Seguros no Brasil, realizado pela ENS, mostra que, apesar de a proporção de mulheres em todos os níveis nas seguradoras ser de 54,4%, sua presença em cadeiras de decisão ainda é proporcionalmente menor em relação aos homens. Para cada dois executivos de alto escalão, existe uma mulher. Já nas entidades que participaram do PDMS, todos os presidentes são homens.

Embora as constatações possam parecer desanimadoras, o cenário já foi pior. No 1º estudo da , divulgado em 2013, existiam quatro homens em cargos de decisão para uma mulher. Atuando no mercado segurador há mais de 30 anos, Simone Martins, 1ª Vice-Presidente do Sincor-SP, entende que o setor progrediu muito, mas que há um importante caminho a percorrer. “Na parte salarial, por exemplo, ainda há uma distância na casa dos 33% do mesmo cargo ocupado por um homem. Tenho muita confiança que brevemente este percentual será equilibrado”, projeta.

Os atrasos oriundos da construção das civilizações são heranças do mundo contemporâneo. Em 2010, Kathryn Bigelow conquistou o Oscar na categoria “Melhor Direção” com o drama “Guerra ao Terror”. Ela foi a primeira diretora a levar a estatueta para casa após mais de 80 edições. 19 anos antes, a Copa do Mundo feminina dava seu pontapé inicial, enquanto a seleção brasileira masculina já tinha fincado suas raízes na cultura do torcedor com três troféus na galeria. As mulheres conquistaram direito ao voto somente em 1932, e a primeira chefe de Estado foi eleita pela República depois de 121 anos de proclamação.

Na avaliação de Simone, a busca pela equidade de gênero deve ser constante. Ela entende que existam alguns pilares para continuar o processo de construção:

  • Boas remunerações;
  • Promoções de carreira;
  • Posições de liderança;
  • Treinamento e capacitação;
  • Qualidade de vida.

Nesse processo de evolução da equidade de gênero, o setor de seguros é um reflexo do mercado de trabalho como um todo. Segundo o levantamento do CNI (Confederação Nacional da Indústria), as mulheres ocupam hoje 39,1% dos cargos de liderança no país. São consideradas funções de liderança diretores, dirigentes, gerentes ou supervisores. No entanto, o levantamento também revela que as mulheres empregadas estudaram mais tempo que os homens: 12 anos, em média, contra 10,7.

Stephanie Zalcman, diretora Técnica de Operações e Estruturação da Wiz Co, avalia que o setor de seguros até tendia a refletir as normas e as desigualdades da sociedade mais  ampla. Atualmente, porém, a executiva entende que o segmento está caminhando para um cenário ideal. “Nos últimos anos, tem havido um movimento crescente para abordar questões de equidade de gênero, tanto internamente nas práticas de emprego quanto externamente nos produtos e serviços oferecidos”.

Um movimento recente na indústria de seguros é a criação de produtos voltados especialmente para o público feminino. Stephanie explica que proteções para vida e saúde, por exemplo, podem considerar as necessidades específicas das mulheres, incluindo coberturas para questões de saúde reprodutiva ou licença maternidade.

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Vozes ativas de representatividade

Mesmo em cargos de decisão, as mulheres podem ter sua voz sabotada dentro das organizações. Stephanie já passou por experiências que sentiu sua opinião ser ignorada. Após compartilhar uma ideia inovadora para um projeto em andamento, sua contribuição foi rapidamente ignorada pelo grupo, predominantemente masculino. “Momentos depois, um colega, homem logicamente, apresentou uma ideia similar como se fosse sua, recebendo elogios e apoio do mesmo grupo que ignorou a minha sugestão original”, lembra.

O exemplo de Stephanie, uma experiente executiva do setor de seguros, mostra que para as opiniões delas serem ouvidas nas organizações não basta apenas ter conhecimento técnico. A renomada fonoaudióloga brasileira e professora do Insper, Mara Behlau, avalia que as mulheres ainda precisam “falar grosso” para serem ouvidas. “As vozes mais graves são associadas ao sucesso”, contou a especialista em entrevista à Revista Época. “Nas organizações, ela provoca uma percepção de maior competência, persuasão, confiança e segurança”, completou.

A avaliação da especialista revela um problema crônico e complexo a ser resolvido. Stephanie entende que, para ofuscar essa cultura, o progresso é um processo contínuo que requer compromisso e ação constante. “Embora tenha havido avanços significativos, a jornada para alcançar a plena equidade de gênero é contínua”, pondera.

Em 2022, o Clube dos Corretores de Seguros do Rio de Janeiro (CCS-RJ) elegeu uma mulher para presidente pela primeira vez na sua história. Fátima Monteiro, que também é líder na sua corretora, observa que, mesmo sendo um setor com com lideranças repleta de homens, aos poucos as mulheres estão mostrando sua capacidade e seu profissionalismo para mudar o cenário.

“Com capacitação, nós mostramos que somos competentes em qualquer ramo. Hoje temos mulheres liderando em todos os ramos de seguros com muita competência”, salienta Fátima.

Quando entrou no Sincor-MG em 1984, Maria Filomena, hoje Vice-Presidente da Fenacor, deparou-se com um cenário tomado por homens. Com poucas referências de mulheres em cargos importantes, ela não deixou se intimidar e galgou importantes cargos no sindicato até chegar à presidência. Maria foi a primeira presidente de um sindicato de corretores de seguros, atuando na liderança durante três mandatos.

Uma referência no setor, Maria entende que a  sua história inspira mulheres que projetam seguir carreira no segmento e que isso gera a responsabilidade de ser sempre uma vitrine para essas pessoas. “Desempenho esse papel e assumo as minhas responsabilidades com o maior prazer e amor do mundo”, conta.

Para Maria, que neste ano completa 40 anos de mercado, é visível a evolução do setor durante o período. “Nós  temos grandes executivas como CEO de seguradoras e ocupando outros cargos que até pouco tempo eram tomados por homens”, ressalta.

Resultados nas organizações

Adequar o discurso com a prática é um importante exercício para as organizações. Em linha com os avanços no ambiente corporativo, Maria conta que a Fenacor é aberta a esse diálogo e promove isso entre os seus colaboradores, com boa parte do quadro diretivo composto por mulheres. Segundo ela, para trabalhar na Federação basta ter vontade de atuar em prol do desenvolvimento dos corretores de seguros.

Além de ser importante uma empresa de qualquer natureza se posicionar, a diversidade de gênero melhora o desempenho das companhias, segundo o levantamento de 2020 feito pela McKinsey. A pesquisa indica que,
dentre as companhias que adotam essa política, 55% entregam resultados operacionais acima da média da indústria.

Na AXA, uma das principais seguradoras do país, 53% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres, incluindo a CEO, Erika Medici. Em 2023, a companhia cresceu 19% no Brasil. “Uma empresa diversa melhora sua capacidade de inovação e as possibilidades de um crescimento sustentável”, conta Alexandre Campos, VicePresidente de RH, Jurídico, Compliance, Sustentabilidade e General Secretary da companhia.

Campos entende que uma empresa do tamanho da AXA precisa servir de exemplo para outras organizações. Na sua avaliação, o reforço contínuo da importância da diversidade de gênero e da inclusão pode ser inspirador. “Estamos comprometidos em traduzir nosso discurso em ações tangíveis. Isso se dá por meio de políticas claras e transparentes, como a que especifica que em todas as contratações e promoções internas, é necessário ter pessoas de gêneros diferentes entre os finalistas. A partir dessa exposição à diversidade, escolhe-se o profissional mais adequado para o desafio em questão”, conta.

Seguindo a mesma linha da AXA, Stephanie conta que a Wiz sai do discurso para a prática com iniciativas focadas na diversidade e inclusão, como aderir aos Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU e desenvolver programas específicos para acelerar e impulsionar a carreira de mulheres e mães em seu ecossistema. “Possuímos um comitê interno de diversidade que promove iniciativas para um ambiente de trabalho mais inclusivo, além dos programas de mentoria realizados anualmente como forma de promover o tema”.

Todas as executivas que hoje assumem importantes cargos onde trabalham vislumbraram no início grandes passos na carreira profissional. Para que as experiências sejam usufruídas por todo mundo, independentemente de cor, raça ou gênero, é necessário o esforço conjunto no fortalecimento dessas discussões no ambiente corporativo.





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