“Rejeitar o mercado mutualista hoje é repetir o erro da Kodak”, avalia sócio da Voasan

"Rejeitar o mercado mutualista hoje é repetir o erro da Kodak", avalia sócio da Voasan

Para Luís Felipe Pinto, a regulamentação consolidou um novo ambiente de negócios e exige adaptação de corretores, gestores e entidades

A regulamentação da proteção patrimonial mutualista inaugurou uma nova etapa para associações e cooperativas, marcada por maiores exigências de governança, transparência e tecnologia. Mais de um ano após a entrada em vigor das novas regras, o setor começa a consolidar um processo de profissionalização que promete transformar a forma como essas organizações operam e se relacionam com o mercado.

Nesta entrevista, Luís Felipe Pinto, executivo da Voasan, analisa os impactos da regulamentação, comenta os investimentos em tecnologia para atender às exigências da SUSEP, critica pontos das recentes resoluções do CNSP e compartilha sua visão sobre o futuro do mutualismo no Brasil.

Seguro Nova Digital – A Voasan, em conjunto com um grupo de investidores, investiu em uma importante ferramenta tecnológica voltada para o setor de proteção patrimonial mutualista. O que isso vai impactar no mercado?

Luís Felipe Pinto – O impacto é majoritariamente regulatório e operacional. Trazer softwares prontos de mercado engessa a operação e não atende às exigências atuais. Desenvolvemos uma solução nativa, em parceria com a Confitec, para automatizar o envio de dados à SUSEP em tempo real, sem manipulação humana em planilhas Excel. Isso traz transparência e resolve as dores da governança de ponta a ponta.

SND – Passado mais de um ano da regulamentação do setor de associações e cooperativas, qual balanço você faz?

LFP – O maior ganho foi a saída da informalidade regulatória. Isso criou um filtro natural entre quem atua com seriedade e quem buscava apenas um negócio superficial. Além de trazer segurança ao consumidor, a profissionalização força o amadurecimento dos dados estatísticos do mercado. No caso das cooperativas, o ganho foi a liberdade de um mutualismo gerido sem dependências externas.

SND – Como vencer a resistência de corretores de seguros tradicionais que
ainda evitam esses produtos?

LFP – Rejeitar esse mercado hoje é como ter um carro a combustão e ignorar o elétrico, ou repetir o erro da Kodak perante o digital. O corretor vive de vendas. Se ele não quiser ofertar um ambiente agora regulado, perderá espaço. Além disso, a velocidade na ponta da PPM é instantânea: enquanto um corretor faz uma cotação tradicional, a proteção veicular mutualista fecha cinco contratos.

SND – Você tem críticas às resoluções recentes para as Cooperativas de Seguro?

LFP – Sim. A Resolução 492/2026 permitiu apenas que cooperativas de crédito participem da construção de cooperativas de seguros. Isso parece uma reserva de mercado via lobby. Por que excluir o agronegócio? A solução é a intercooperação ampla: qualquer ramo do cooperativismo deveria ter o direito de participar.

SND – Como a Voasan e o escritório de Roberto Panucci estão se posicionando para o encerramento da janela regulatória?

LFP – A Voasan atua em parceria estratégica com o Dr. Roberto Panucci, que é referência na estruturação de grandes seguradoras no país. Nosso foco é garantir a conformidade e a sobrevivência das associações sérias.

SND – O que motivou a recente reestruturação empresarial e o seu reposicionamento pessoal como executivo?

LFP – Estamos migrando de um escritório contábil tradicional de 14 anos para uma holding focada em auditoria, governança e tecnologia atuarial. Pessoalmente, estou em transição de carreira, concluindo formação no IBGC e Fipecaf para atuar diretamente na governança desse novo ecossistema. O mercado mudou e exige preparo técnico de retaguarda, não apenas discurso comercial.

SND – Executivos tradicionais de seguradoras estão prontos para o cooperativismo? Você assumiria uma cadeira nessa linha?

LFP – O executivo tradicional foca em valuation e resultado mercantilista puro, conceitos que não batem com a essência associativista. O cooperativismo ganha muito em eficiência tributária, mas necessita de uma mentalidade focada no vínculo e na razão social. Por ter raízes fincadas no terceiro setor e na coletividade, eu não me vejo como executivo de uma seguradora tradicional hoje.

SND – O que projeta para o futuro das associações e cooperativas daqui para frente?

LFP – Vejo dois caminhos: ou uma desmutualização das PPMs em direção ao cooperativismo devido à alta complexidade de gerir três governanças simultâneas (associação, grupo de proteção e administradora), ou uma convivência paralela e simbiótica com as marcas das associações se unificando em torno de grandes administradoras. Após 2028, com o cruzamento total de dados na SUSEP, teremos um cenário de análise nunca visto no Brasil.

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