Regulamentação abre caminho para cooperativas, mas desafio será conquistar os corretores

Regulamentação abre caminho para cooperativas, mas desafio será conquistar os corretores

Entrevista publicada, originalmente, na 65ª edição da revista digital.

Para Arley Boullosa, sócio-fundador da Moby Corretora e consultor comercial do Sincor-RJ, profissional aguarda definição clara sobre o modelo de distribuição antes de apoiar as novas operações

A regulamentação das cooperativas de seguros e das entidades de proteção patrimonial mutualista representa um passo importante para organizar um mercado que durante anos operou sem regras específicas. Porém, essas organizações têm um desafio: encarar a desconfiança dos corretores, profissionais que representam 80% das vendas de seguros no país.

Arley Boullosa, sócio-fundador da Moby Corretora e consultor comercial do Sincor-RJ, afirma que a adesão dos corretores de seguros às cooperativas regulamentadas não será automática. Segundo ele, a categoria observará atentamente como essas novas operações irão estruturar seus canais de distribuição antes de decidir se irá comercializar seus produtos.

“Mesmo depois de regulamentadas, o corretor vai aguardar um período de definição para ter certeza de que foi escolhido como canal de distribuição. Se insistirem, como vemos algumas que já estão dentro da Susep, em vender com qualquer um, não merecem nossa confiança e nossa produção”, afirma.

Para o especialista, modelos que combinam venda direta e intermediação dificilmente conquistarão espaço entre os profissionais. “Empresas que operam em modelo híbrido não interessam para os corretores. É parceira ou não. Vimos, ao longo do tempo, seguradoras digitais sérias mudarem seu modelo porque vender diretamente não funcionou”, pontua.

“Isso não é exclusividade do Brasil, onde somos responsáveis por cerca de 80% das vendas. Em todo o mundo, qualquer seguradora que quer dar certo precisa definir o corretor de seguros como parceiro único”, completa o sócio da Moby.

Quem vai cumprir as novas exigências?

Na avaliação de Boullosa a regulamentação cria uma oportunidade para que parte dessas organizações passe a atuar sob supervisão do órgão regulador, aumentando a segurança jurídica para consumidores e para o próprio mercado.

Por outro lado, a adaptação às novas exigências deverá funcionar como um filtro natural. Para o especialista, apenas uma parcela reduzida das entidades conseguirá atender aos requisitos de governança, capitalização e estrutura operacional previstos na regulamentação.

“Foi um movimento importante da Susep para trazer uma parte desse mercado para a legalidade. Oferecendo a oportunidade de serem regulamentadas e supervisionadas pelo órgão, uma parte vai passar pelo funil. Acredito que tenha um percentual pequeno que vai conseguir cumprir as exigências para operar, mas a maioria fica de fora porque não tem a menor condição”, afirma.

Mercado ainda possui grande espaço para crescer

Na avaliação do especialista, a regulamentação também pode contribuir para ampliar o acesso à proteção patrimonial, principalmente no segmento automotivo.

Boullosa observa que as seguradoras tradicionais continuam concentrando esforços em clientes de menor risco, como segurados com histórico de bônus e veículos mais novos, enquanto uma parcela significativa da frota nacional permanece sem cobertura.

“Temos um percentual pequeno da frota segurada. Alguns falam em 30%, mas acredito que seja entre 20% e 25% no máximo”, destaca.

Segundo ele, um dos principais obstáculos está no envelhecimento da frota brasileira. Com veículos cada vez mais antigos, muitos proprietários deixam de contratar seguro por considerarem o custo elevado.

“As seguradoras ainda não conseguiram criar produtos de entrada capazes de ampliar a oferta de seguro automóvel para quem hoje está fora do mercado. Quem possui um carro com mais de cinco anos muitas vezes entende que não vale a pena contratar o seguro porque o preço ficou alto”, conclui.

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