22/09/2020
Seguros corporativos, o futuro da sociedade brasileira mais protegida

Seguros corporativos, o futuro da sociedade brasileira mais protegida

Após a pandemia, seguros para pequenos e médios empresários ganharão mais importância, colaboradores podem valorizar os benefícios e corretores devem ampliar seu portfólio
Conteúdo da 8ª edição da revista

A atividade seguradora no Brasil começou antes mesmo de o país se tornar uma República. Desde o início, o corretor encarou as dificuldades de oferecer seguro para pessoa física. Os profissionais se acostumaram a receber respostas negativas de clientes, mesmo após cuidadosas seções de prospecção. No Brasil, expor a necessidade de um seguro na vida de cada pessoa sempre foi uma tarefa árdua, sobretudo quando nada tangível está em jogo. Esse prognóstico é causado por uma série de fatores, mas principalmente pela desigualdade financeira e estrutural das famílias brasileiras. Pouca informação e orçamento curto inviabilizavam o acesso ao seguro.

Esse problema diminui aos poucos. Com a crise econômica vivida nos últimos anos, o nível de desemprego poderia diminuir ainda mais o interesse da população pelo seguro. É a lógica: menos trabalhadores, menor é o poder de compra. No entanto, o lógico mudou de figura. O desemprego obrigou os brasileiros a pensarem duas vezes antes de sair entregando currículos de porta em porta. Desse modo, nos últimos anos surgiu com grande força a ideia de empreendedorismo no país. O resultado disso foi o disparo no surgimento de pequenas e médias empresas, que, consolidando seu negócio, empregam cada vez mais.

Esse crescimento acentuado corroborou para que as seguradoras olhassem para esse público de uma maneira especial. Com sistemas de produção diferentes, cada estabelecimento surgiu com suas necessidades particulares, mesmo que isso ainda não estivesse na cabeça do proprietário. Para Carla Almeida, Diretora de P&C da AXA no Brasil, momentos difíceis como a pandemia e a volta do desemprego, aumentam a percepção da importância do seguro. “A ótica de que o seguro é um custo está perdendo espaço para a percepção de investimento. Os pequenos e médios empresários perceberam a necessidade da cobertura, pois está fazendo falta neste momento”, analisa.

Carla Almeida, da AXA
Carla Almeida, da AXA

Seguindo a lei de oferta e demanda, a AXA no Brasil adotou há pouco mais de um ano, a linha de pequenos e médios riscos, garantindo a cobertura para o segmento de comerciantes que vem crescendo no país. “Os riscos para essas empresas estão cada vez mais peculiares. Isso provoca o mercado segurador a desenvolver novos produtos”.

Um seguro bem contratado evita prejuízos financeiros, mitigando os riscos externos como uma pandemia, por exemplo, e até garantindo o pagamento de indenizações em caso de acidentes. Em 2013, o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, matou 242 pessoas e feriu outras 680. As más condições de segurança do local são apontadas como o principal motivo de tantas vítimas fatais. Além disso, os familiares lutam ainda hoje na justiça a fim de receber as indenizações.

Thisiani Martins, presidente da Comissão de Riscos Patrimoniais Grandes Riscos da FenSeg, escreveu em seu artigo “Seguro Empresarial no centro das atenções com incêndio em Hospital Badim” a importância de o estabelecimento ter coberturas para danos a terceiros. “O Seguro Empresarial possui cobertura básica que protege o imóvel segurado contra incêndio, queda de raio e explosão”, analisou.

Em concordância com Carla, da AXA no Brasil, Thisiani lembrou que “a esta garantia básica pode ser adicionada outras coberturas, observando a característica da empresa”.

O seguro contra incêndio é obrigatório, mas muitos comerciantes ainda deixam de contratar. Em 2019, a Pesquisa Global Zurich fez um levantamento em 15 países, reunindo 3 mil companhias de pequeno e médio porte. O estudo revelou que apenas 8,5% das empresas se preocupam com acidentes envolvendo fogo. No Brasil, o índice chegou a 23% de um total de 200 empresas ouvidas.

Antônio Camano é professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS) e consultor de previdência e seguro de vida. Ele observa que os seguros corporativos são importantes para o corretor atingir um público maior, tornando-se uma forma mais rápida de disseminar seguro. “O dono da empresa se resguarda de problemas futuros, como pagamento de altas despesas em decorrência da invalidez ou da morte do funcionário”.

Antonio Camano, professor da ENS
Antonio Camano, professor da ENS

Camano ressalta que esse ramo “é muito importante para os consultores venderem outros produtos”. Além disso, segundo o especialista, o setor de seguros corporativos é um dos principais caminhos para uma sociedade mais protegida.

Valorização profissional

Uma das estratégias das empresas para reter mais colaboradores e aumentar a produtividade é o oferecimento de benefícios. O seguro de vida em grupo é o canal corriqueiro para estabelecer esse diálogo. Para Silas Kasahaya, presidente do CVG-SP, é possível que os trabalhadores valorizem ainda mais o Vida em Grupo após a pandemia, assim como já vem ocorrendo nos planos individuais. “Acredito que a percepção da população em relação ao seguro de vida está mudando. Esse movimento já vinha ocorrendo nos últimos dois anos e durante a pandemia se intensificou. A letalidade do vírus provocou, de certa forma, um despertar na população, que se sentiu mais vulnerável ao risco de morte”, pondera.

Os índices de adesão pelo Vida em Grupo caíram nos últimos anos, ao contrário do seguro de Vida Individual, cujas as vendas crescem desde que essa proteção passou a ser mais valorizada pela população com a pandemia. De acordo com levantamento da FenaPrevi, entre 2018 e 2019, enquanto o Vida Individual cresceu 70%, saltando de R$ 3,2 bilhões para R$ 5,4 bilhões, o VG cresceu apenas 4,36%, com a arrecadação de R$ 10,2 bilhões em 2018 e R$ 10,7 bilhões em 2019. “Uma tendência verificada antes pandemia e que agora deverá se acentuar é que o seguro de vida individual supere o coletivo. Será uma mudança histórica, já que o VG sempre liderou a carteira”, aponta Kasahaya.

Silas Kasahaya, presidente do CVG-SP
Silas Kasahaya, presidente do CVG-SP

Embora considere que os planos de Vida em Grupo sejam uma grande porta de entrada para a disseminação da cultura do seguro no país, Kasahaya explica que esse não é o único caminho. “Os seguros empresariais têm papel importante na fomentação do seguro entre os trabalhadores formais, mas não é o único meio para a disseminação. A cultura da proteção também é estimulada por alguns seguros acessíveis às pessoas físicas, não necessariamente empregados de empresas privadas, como é o caso do seguro prestamista, do microsseguro, dos seguros educação, viagem, funeral, etc”.

Benefícios

Os empresários de micro e pequeno porte representam 99,1% dos donos de empesas no Brasil, segundo mostra o IBGE. Além disso, uma pesquisa de 2019 do instituto registrou 326,6 mil novos empregos criados pelos autônomos, representando 35 vezes mais que os empregos gerados pelas médias e grandes empresas.

Com o intuito de manter os colaboradores sempre motivados, as empresas buscam oferecer benefícios, como plano de saúde, assistência odontológica, seguro de vida e os mais variados tipos de serviço de alimentação. “O plano de saúde é um dos fatores preponderantes para a atração e retenção de talentos. É uma das principais razões que levam os gestores de RH a contarem com a assinatura de qualidade no apoio à sua gestão de pessoas”, explica Cícero Barreto, diretor Comercial e de Marketing da Omint.

Segundo Barreto, o corretor é o centro da jornada desse tipo de venda. Para isso, esse canal deve ser especializado, com conhecimento dos produtos e serviços e adotando a venda consultiva para promover a ‘hora da verdade’ bem feita. “O corretor deve demonstrar a importância da boa gestão na atração e retenção de talentos da empresa do seu cliente. Além disso, é preciso dar previsibilidade da administração de recursos e, consequentemente, a perenidade na administração de benefícios”.

Cicero Barreto, da Omint
Cicero Barreto, da Omint

O executivo ressalta que o Saúde Empresarial agrega valor ao trabalhador, “uma vez que é um benefício que se estende à saúde dele e ao seu maior patrimônio, que é sua família, amparando-os tanto em demandas eletivas quanto urgentes dentro da cobertura contratada”. Por isso, segundo ele, tantos colaboradores levam em consideração o plano de saúde em suas contratações, chegando a recusar até salários maiores em troca de vagas que oferecem um plano de saúde mais robusto e estruturado.

Para o colaborador abrir mão de um salário maior e, consequentemente, optar por mais benefícios é um tabu brasileiro que precisa ser quebrado. “Muitas vezes, o trabalhador deseja receber em dinheiro a contribuição que seria descontada do seu salário com valor bem menor do mercado”, constata Vinicius Barros, Diretor de Benefícios da Korsa Seguros.

Por isso, segundo o executivo, é preciso personalizar os benefícios para cada empresa. “A regionalização dos planos de saúde, por exemplo, é muito importante, pois atende de maneira adequada as necessidades do colaborador”, explica.

Vinicius Barros, da Korsa
Vinicius Barros, da Korsa

A Korsa Seguros desenvolveu o programa de gerenciamento de risco em saúde, uma plataforma de integração entre seguradora/operadora e cliente, com a intermediação da companhia. Dessa forma, a Korsa leva informações relevantes ao RH da empresa como forma de criar uma aproximação com o funcionário. “Não adianta oferecer benefícios sem que o trabalhador entenda sua importância. É necessário que a empresa faça uma política de gestão qualitativa, com RH proativo, podendo criar programas adequados para seu quadro de funcionários”, explica.

Barros acredita que o ramo de benefícios na companhia é um grande passo para o desenvolvimento do mercado de seguros brasileiro. O executivo explica que “o gestor deve ter um programa de administração de benefícios bem implementado, com uma corretora sempre o assistindo. Esses programas diminuem o índice de afastamento do colaborador e reduz o custo para empresa em caso de acidente de trabalho”.

Estudos da CNseg preveem que o mercado sofrerá os impactos da pandemia no segundo semestre deste ano. Por outro lado, alguns segmentos podem crescer por conta das demandas causadas pela Covid-19. Na Omint, segundo aponta Barreto, houve um aumento nas vendas de produtos PME e ME, muito por conta da preocupação do pequeno e médio empreendedor em guardar seu maior patrimônio: os colaboradores e sua própria família. A perspectiva, portanto, é que com a retomada do mercado brasileiro, logo a economia retornará ao seu equilíbrio, surgindo novos investimentos.

Leia, por fim, a oitava edição da revista:

Sergio Vitor, jornalista especializado em seguros

Jornalista e editor da Seguro Nova Digital

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